29 de junho de 2020

Artigo: Alterações climáticas em tempos de pandemia – o caso de Pernambuco

À medida que as temperaturas globais aumentam, o vapor d’água se torna mais abundante numa proporção de 7% para cada grau Celsius de aquecimento nos trópicos. Isso tem fortes implicações para o clima, pois o vapor d’água também causa efeito estufa. Os vários cenários de mudanças climáticas para o país, em função dos diversos cenários de emissões de gases do efeito estufa (GEE, principalmente o dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, CO2, CH4 e N2O, respectivamente), para os próximos 100 anos, indicam à possibilidade de impactos climáticos significativos. No cenário business as usual de crescimento das emissões dos gases de efeito estufa, os modelos climáticos computacionais sugerem que poderá ocorrer aquecimento de 4 a 6 graus Celsius em partes do país (principalmente na Amazônia) ao final do século (NOBRE,2001).

O gradual aquecimento da atmosfera implica na alteração de ciclos delicados do balanço climático aos quais as civilizações se desenvolveram ao longo de milênios. Tais ciclos incluem o desenvolvimento de processos de retroalimentação positiva, como por exemplo, a alteração do albedo planetário com o derretimento das geleiras continentais e da diminuição da cobertura do gelo marinho, os quais por sua vez, com a diminuição do albedo superficial, ocasionam maior absorção da radiação solar à superfície, que retroalimenta o aumento da temperatura do ar (PBMC, 2013).

O resultado mais visível de um planeta mais quente é um oceano também mais quente. Assim, o hemisfério norte mais aquecido tem favorecido a um posicionamento da Zona de Convergência Intertropical (principal fenômeno meteorológico indutor de chuvas do semiárido nordestino) mais ao norte da sua posição média, podendo causar secas prolongadas por mais de dez anos consecutivos no semiárido do Nordeste do Brasil.

Os padrões climáticos atuais têm gerado extremos climáticos. No século XXI, a ocorrência de chuvas intensas, combinadas com surtos de tempestades, tem afetado várias áreas do Sertão, Agreste e Litoral de Pernambuco (LACERDA, 2015). Pancadas de chuva podem gerar inundações instantâneas nas bacias hidrográficas. O fato é que escassez de chuva está ocorrendo, concomitantemente, com volume significativo de chuva, ano a ano, gerando enchentes e secas agrícolas, por anos consecutivos. Esta alteração, observada do ciclo hidrológico está intrinsecamente ligada às alterações dos padrões de chuva e temperatura, em Pernambuco (Lacerda et al., 2015)

Os impactos significativos das mudanças climáticas exigem cortes substanciais e sustentados das emissões de gases de efeito estufa com vistas a combater as causas do aquecimento global, mas também é essencial um novo paradigma energético e econômico que apoie o desenvolvimento de sociedades mais adaptadas ao clima. Ações estratégicas podem ser adotadas e ampliadas para o convívio com as consequências das mudanças climáticas em curso, como por exemplo, desenvolver programas de reflorestamento, envolvendo todos os biomas, da Caatinga à Mata Atlântica, nas áreas rurais e urbanas, não exclusivamente pelo valor das florestas nativas para a estabilidade do clima e da biodiversidade, como também, pelos serviços ambientais e econômicos que representam.

O FUTURO - Os padrões climáticos atuais, já fora do padrão “normal”, têm causado secas severas com sérios impactos na segurança hídrica. Há impactos por todos os lados, afetando a vida dos animais, das populações e do meio ambiente, como um todo.

Não menos importante é o efeito antrópico que tem transformado o ambiente de forma muito rápida, introduzindo quantidades significativas de carbono fóssil nos oceanos e nos biomas, consumindo enormes volumes de água por meio de vários processos. Os impactos da agricultura moderna têm alterado os ecossistemas com alto impacto na microbiota, aumentando potencialmente o risco de patógenos zoonóticos do ponto de vista da sua proliferação nos seres humanos. A biodiversidade disputa por espaço com as atividades produtivas, a expansão da pecuária afeta a vegetação nativa (Mourkas et al., 2020).

Os problemas identificados, nesse contexto são a degradação ambiental sistemática do solo, a emissão de gases de efeito estufa e poluição dos recursos hídricos. Em relação às emissões de GEE, a atividade agropecuária contribui com cerca de 16% do total das emissões.

A bovinocultura é exigente em água e alimento. Para as bactérias que vivem dentro desses animais, essa expansão maciça de hospedeiros tem tendência de se espraiar globalmente. Isso acarreta riscos aos humanos, entretanto, pouco se sabe sobre como essas bactérias zoonóticas (Mourkas et al., 2020). Esse cenário exige uma transformação radical, significativa e permanente na paisagem socioeconômica e ambiental do Nordeste Semiárido. Profunda é a transformação que percebemos no planeta terra, uma realidade que é reflexo daquilo que somos na atualidade.

É digno de nota que as crises energéticas, econômica e a atual pandemia no Brasil, estão colocando as preocupações ambientais num segundo plano. Parece cada vez mais certo, que ações resolutas para a diminuição das emissões de GEE somente acontecerão após a ocorrência de alguma “surpresa” climática, principalmente, se tal surpresa climática se der nos países desenvolvidos, assim como foi pandemia pelo COVID19.

Francis Lacerda - Climatóloga e pesquisadora do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) - entidade em que atua desde 1996. É doutora em Engenharia Civil (UFPE), mestra e graduada em Meteorologia (UFPB). Fundadora do Laboratório de Meteorologia de Pernambuco, na década de 1990, onde coordenou até 2011. Atualmente é responsável técnica pelo Laboratório de Mudanças Climáticas do IPA, publicou artigos e periódicos científicos nas áreas de meteorologia, climatologia, comunicação, filosofia e mudanças climáticas. Representou Pernambuco em duas Conferências Globais do Clima da ONU, na Polônia e na Dinamarca. Membro do Fórum Pernambucano de Mudanças Climáticas e colaboradora do INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) nas áreas de Mudanças Climáticas e de Comunicação. Foi condecorada, em 2010, por serviços prestados na área de previsão do tempo, com a medalha da Ordem do Mérito dos Guararapes.